O Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, mas nem sempre foi assim, se é que é. Quem realmente meteu o bicho foi um cara chamado Pereira Passos. Esse carinha foi prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no período de 1902 e 1906, então nomeado pelo presidente Rodrigues Alves. Mas vocês devem estar se perguntado: o que tem haver o tal Pereira Passos com a história da noite ? A resposta é: mais do que vocês imaginam. Pereira Passos, juntamente com Lauro Müller, Paulo de Frontin e Francisco Bicalho, promoveu uma grande reforma urbanística na cidade, tudo com o objetivo de transformá-la numa capital nos moldes franceses, conforme as ideias do Barão Haussaman, então prefeito de Paris. Pereira Passos fez tanta reforma no Rio de Janeiro que sua gestão foi jocosamente chamada de "Bota-abaixo". O cara saiu demolido tudo, até morro o cara demoliu. Mas entre os grandes feitos do Pereira Passos o mais relevante para nossa história foi o lançamento em 1903 do concurso para apresentação de um projeto para construção do Teatro Municipal. Os vencedores do projeto foram os arquitetos Oliveira Passos e Albert Guilbert. A obra deveria se parecer com a Opera de Paris, sendo concluída sua construção em 1909 e inaugurado por Nilo Peçanha. na realidade o que nos interessa não é o Teatro Municipal em si, mas sim o restaurante que ficava no subsolo que somente foi aberto ao público em 1911. O restaurante Assyrio foi o ponto de inflexão da noite carioca a partir de 1915. Lá, grandes bailes foram realizados, festas de carnaval, exibição de grandes nomes do meio artístico musical, como era o casa do Pixinguinha. O bar era um verdadeiro palácio Egípcio. Para não ficar muito grande, conto pra vocês em outra postagem a história desse excepcional local. Nas fotos, Pereira Passos, o Teatro Municipal e o restaurante Assyrio.
domingo, 1 de novembro de 2020
Falado na República, não podemos esquecer de um dos últimos momento da monarquia brasileira, o famoso Baile da Ilha Fiscal, protagonizado por D. Pedro II em homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane. Pode se dizer que essa festança foi o último suspiro da monarquia, pois seis dias depois eis que era proclamada a República. O último baile do império, como até hoje é chamado, foi um legitimo bota-fora protagonizado pela corte de D. Pedro II, foram consumidos pelos 4,5 mil convidados nada menos que: 800 kg de camarão, 300 frangos, 500 perus, 64 faisões, 1.200 latas de aspargos, 20.000 sanduíches, 14.000 sorvetes, 2.900 pratos de doces, 10.000 litros de cerveja, 304 caixas de vinhos, champagne e bebidas diversas. Isso que é uma festa. Pois bem, até hoje os historiadores debatem sobre a motivação para tanta gastança, uns dizem que na realidade o baile foi para comemorar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde d´Eu, outros dizem que foi apenas para demonstração de poder do império, sendo que se foi essa última hipótese, acho que não deu certo, pois logo depois a monarquia levou o farelo. Um último detalhe dessa gastança toda, é que dos 4,5 mil convidados, somente 500 iriam participar do jantar. Na foto o cardápio do dito baile. Quem for ao Rio de Janeiro pode conhecer o local em que se realizou o tal baile, o passeio custa R$ 25,00 (vinte e cinco reais).
Dando continuidade as minhas postagens sobre a história da noite, faço uma pergunta: qual a relação existente entre bonde, boemia e república ? Parece que nenhuma, porém essa afirmação é um ledo engano. Inicialmente deve se ter em mente que a boemia no Rio de Janeiro somente teve início com a organização do transporte coletivo, ou seja, os velhos bondes, aqueles ainda puxados à cavalo. Tanto é verdade tal afirmativa, que os primeiros teatros foram construídos justamente no local de chegada e partida dos ditos bondes. No Rio de Janeiro, esse local era denominado Largo do Rosário, posteriormente rebatizado de Praça Tiradentes. Pois bem, os bondes demoravam tanto que a rapaziada ficava por lá de bobeira até iniciar os espetáculos, essa espera acabou por fazer proliferar os bares e cafés instalados as proximidades dos teatros, local esse que rapidamente caiu nas graças de intelectuais, jornalistas, artistas de teatro, médicos, advogados políticos e etc. Essa mistura de atores sociais, com alto poder explosivo, é que originou os primeiros debates políticos que acabaram por resultar na abolição da escravatura e na proclamação da República. Na foto o antigo Largo do Rosário.
sábado, 31 de outubro de 2020
Anos se passaram e a sociedade carioca já totalmente integrada com a evolução dos hábitos sociais, a dança, a bebedeira e o flerte já faziam parte do cotidiano burguês que se formava no final no século XIX. Uma das coisas, ou melhor objeto mais importante que uma mulher naqueles tempos poderia utilizar era o leque. Acessório indispensável, pois nenhuma mulher saia para uma "balada" na época sem o seu leque. Mas porque isso ? Na verdade, o leque era um poderoso instrumento de comunicação na arte de conquistar e ser conquistada. Naqueles tempos a sacanagem não era tão ostensiva, e para que o homem conquistasse alguma dama, a mesma deveria expressar as suas intenções através de movimentos com o leque. Para vocês entenderem que o negócio era sério, o ato de abrir suavemente o leque com a mão esquerda significava que a dama estava afim, na verdade esse movimento significava literalmente a seguinte expressão: "Estou disposta a corresponder seus desejos." Putz, tudo seria mais fácil se não tivessem modernizado nada, por outro lado, se a pretendente levasse o seu leque até o chão, eis que estávamos nos defrontando com um fora, uma pau na testa do pretendente. Ou seja, o pretendente quando chagava na sua gata já não precisava falar muita coisa, pois o leque já tinha feito todo o trabalho.
Em 1822, com a independência do Brasil, eis que D. Pedro I, um notívago, boêmio inveterado, sempre acompanhado de seu assessor mor para assuntos de putaria, o vulgo "Chalaça". Uma pausa agora, vez que o Sr. Francisco Gomes de Silva, o tal "chalaça", merece um comentário a parte nessa minha série de postagens. Filho de visconde, Chalaça em 1811 foi nomeado por D. João VI para funções palacianas, dentre as quais acompanhar D. Pedro I, que tinha então 13 aninhos, para onde ele fosse. Foi esse dito assessor que acompanhava D. Pedro I em suas jornadas de muita farra, bebedeiras, badernas e etc. pelas noites do Rio de Janeiro. Pois bem, então vocês já sabem, se chamarem vocês de "Chalaça", boa coisa vocês andaram fazendo. Em 1840 a baderna já estava bem evoluída quando então surgiram os primeiros bailes de carnaval animados por orquestras, e aí vocês sabem muito bem até onde vai pagar. Na foto o querido Chalaça, o primeiro incentivados da sacanagem alheia.
Mas foi exatamente em 11 de junho de 1810 que o Jornal Gazeta do Rio de Janeiro publicou o primeiro anuncio de aulas de dança, mais especificamente de uma dança chamada minueto. De origem europeia, o minueto era dançado separadamente e de forma coletiva, não formando casais, tendo uma estética rococó do século XVIII. Tempos depois, o tal minueto foi desbancado pela falsa, que antes era uma dança de periferia. Só um detalhe, a Gazeta do Rio de Janeiro foi fundada em 10 de setembro de 1808 por D. Joâo VI, lá vem ele novamente, sendo distribuída semanalmente tendo como finalidade ser um canal de comunicação da Família Real Portuguesa. Na foto o primeiro exemplar da Gazeta do Rio de Janeiro. Voltando a dança, com a Revolução Francesa, o minueto cai em desgraça, pois materializava claramente a influencia da monarquia na sociedade, passando a partir de então a valsa ser considerada como símbolo da nova classe social que se formava, qual seja, a burguesia. Uma das coisas interessantes sobre esse estilo de dança, é que diferentemente do minueto, que nada mais era uma forma de submissão de toda uma sociedade ao monarca, a valsa indicava uma nova configuração da sociedade em torno do casal e da família burguesa. Muita gente nem imagina, mas foi a valsa que conseguiu unificar a Europa. Para encerrar esse assunto, a valsa tem origem alemã, seu primeiro compositor foi Carl Maria Friedrich Ernst Freiherr von Weber com a musica de nome Douze Allemandes, e, mais especificamente, com o Convite à dança (também conhecido por Convite à valsa), de 1747. Na foto o pai da valsa.
Ainda que não existisse a famigerada internet naqueles tempos, o estilo de vida parisiense se alastrou pelo mundo a fora, chegando a contaminar o Brasil pelos idos da primeira e segunda década do século XX. Obviamente se tem um coisa que a então burguesia brasileira gostava era de vícios, todos, sem qualquer exceção. Bom ou mal, em que pese em Paris esses bas-founds serem frequentados pelo que tinha de pior naquela cidade, aqui esse estilo de vida foi facilmente absorvido pela burguesia endinheirada que estava louca para gastar até o últimos centavos por algumas horas de prazer. Foi nessa toada que se abriram os primeiros salões de dança no Rio de Janeiro. Como era de se esperar, a novidade agradou àqueles que tinha grana no bolso e a sociedade abastada carioca se entregou a dança, como dizia Olavo Bilac "O Rio é idade dança !". A bem da verdade, essa vocação do Rio de Janeiro para dança vem do nosso, mais uma vez, D. João VI. Amante das artes e da cultura, além de criar a Biblioteca Real (atual Biblioteca Nacional), o Jardim Botânico, a Casa da Moeda e o Museu de Belas Artes, também, logo depois de colocar os pés pela bandas de cá, contratou o maestro real (Maestro da Capela Real) Pedro Colona e um professor de dança, o dançarino e coreografo Luís Lacombe que passou a ser denominado "Maestro de Danças da Casa Real", tudo para incentivar a sociedade com os costumes até então difundidos na Europa. Na foto D. João VI, a Biblioteca Nacional, Museu de Belas Artes e o Jardim Botânico.